O isolamento social e o aumento da violência contra as mulheres

Nesta semana uma amiga de Boa Vista, capital de Roraima, comunicou que havia deixado de participar de um grupo de comunicação nas redes sociais porque não suportou o nível de machismo e misoginia que passou a circular entre os membros do grupo criado com o objetivo de fornecer entrega de alimentação neste período de isolamento social.


De acordo com essa amiga, as piadas de baixo nível atacavam diretamente a condição das mulheres e, de modo especial, as esposas, com vocabulário chulo e altamente desrespeitoso. Considerando que o discurso subsidia as práticas, isso nos leva a entender que, se nas redes sociais a condição da mulher é motivo de todo tipo de violência simbólica, nas relações de gênero isso se reproduz, saindo do campo simbólico e chegando às vias de fato.


Na origem desses discursos de desvalorização e banalização da condição da mulher, encontra-se um histórico de reprodução do patriarcado que é aquela formação social em que os homens detêm o poder sobre as mulheres. O patriarcado é um sistema de ideias e valores que se utiliza das diferenças de gênero para legitimar as desigualdades entre homens e mulheres, que reproduzem em sistema micro, as desigualdades de classe.  


Da mesma forma que o patriarcado oprime as mulheres, os homens também padecem sob sua orientação. Isso explica, por exemplo, a dificuldade que muitos homens apresentam para ficarem dentro de casa neste período específico de isolamento social numa convivência de respeito mutuo e divisão social das responsabilidades domésticas.


Isso ocorre poque, historicamente, o trabalho doméstico realizado pelas mulheres, na sua grande maioria em jornadas duplas ou triplas de trabalho, não é remunerado nem reconhecido como trabalho. Este mesmo sistema, nega aos homens o direito e a responsabilidade de compartilhar com as mulheres o trabalho doméstico considerado inferior justamente porque é realizado eminentemente pelas mulheres. Isso explica, por exemplo, a situação de uma parcela importante de homens que não sabe o que fazer dentro de casa quando são obrigados a passar dias ininterruptos com suas esposas e filhos. É como se este tempo que se passa em casa desqualificasse o papel dos homens numa sociedade que os acostuma a viver fora de casa, o que não deixa de ser também uma opressão imposta aos homens.


Os homens que não conseguem realizar uma interpretação do seu papel na sociedade fora dos padrões impostos pelo patriarcado, ou simplesmente reproduz estes padrões, apresentam grande dificuldade de convivência familiar e, logo, grande facilidade de práticas de violência contra as mulheres e, não raro, contra os próprios filhos e filhas. A reprodução da violência se orienta pela reprodução do patriarcado que produz homens fracos, covardes, confusos, brutos e ignorantes que se utilizam da força para resolver qualquer desentendimento no âmbito doméstico.


O patriarcado produz homens incapazes de dialogar com as mulheres numa relação de igualdade. O patriarcado produz homens com limitações históricas de entendimento, de convivência, de respeito, de reciprocidade. Muitos homens e mulheres reproduzem o patriarcado nas relações de gênero que tendem a se tornarem ainda mais complexas neste tempo de isolamento social.


Corroborando com esta reflexão,  o relatório do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), ‘Um olhar para gênero‘ lançado no dia de hoje apresenta dados que confirmam o aumento da violência contra as mulheres neste tempo de confinamento. De acordo com o relatório que acompanha o isolamento social com elevada preocupação, “os surtos de doenças afetam mulheres e homens de maneira diferente, e as pandemias tornam piores as desigualdades existentes para mulheres e meninas e a discriminação de outros grupos em situação de vulnerabilidade, como pessoas com deficiência e pessoas em extrema pobreza. Isso precisa ser considerado, dados os diferentes impactos em torno da detecção e acesso ao tratamento para mulheres e homens”. Afirma o documento.


Ainda de acordo com o relatório, “as mulheres representam 70% da força de trabalho em serviços social e de saúde ao redor do mundo e deve ser dada atenção especial à maneira como seu ambiente de trabalho pode expô-las à discriminação, além de pensar em suas necessidades de saúde sexual e reprodutiva e psicossociais como profissionais de saúde de linha de frente”. Isso as torna mais vulneráveis à contaminação, afirma o relatório.


Frente à pandemia de COVID-19, o UNFPA emite uma nota técnica alertando para a necessidade de se ter um olhar segmentado e proteger meninas e mulheres da violência doméstica durante o isolamento social e afirma que “em tempos de crise, como um surto, mulheres e meninas podem estar em maior risco de violência por parceiro íntimo e outras formas de violência doméstica devido ao aumento das tensões na família. Como os sistemas que protegem mulheres e meninas, incluindo estruturas comunitárias, podem enfraquecer ou quebrar, medidas específicas devem ser implementadas para proteger mulheres e meninas do risco de violência por parceiro íntimo com a dinâmica de risco imposta pelo COVID-19”. Afirma o relatório.


Os dados apresentados no documento do UNFPA alertam para a importância de uma atenção redobrada no contexto do confinamento. Atitudes muito práticas como a desta amiga que preferiu sair do grupo para não compactuar com a reprodução da desqualificação das mulheres são atitudes a serem replicadas por homens e mulheres que não aceitam a reprodução de nenhum tipo de violência contra as mulheres.


A outra atitude é a denúncia. O isolamento social não pode justificar nenhuma forma de violência. A denúncia é um dever e pode salvar vidas.  O Ligue 180 continua funcionando por meio de ligação gratuita e confidencial. Funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana, no Brasil e em outros 16 (dezesseis) países: Argentina, Bélgica, Espanha, EUA (São Francisco e Boston), França, Guiana Francesa, Holanda, Inglaterra, Itália, Luxemburgo, Noruega, Paraguai, Portugal, Suíça, Uruguai e Venezuela. Além de registrar denúncias de violações contra mulheres, encaminhá-las aos órgãos competentes e realizar seu monitoramento, o Ligue 180 também dissemina informações sobre direitos da mulher, amparo legal e a rede de atendimento e acolhimento.



*Marcia Oliveira é doutora em Sociedade e Cultura na Amazônia (UFAM), com pós-doutorado em Sociedade e Fronteiras (UFRR); mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia, mestre em Gênero, Identidade e Cidadania (Universidad de Huelva - Espanha); Cientista Social, Licenciada em Sociologia (UFAM); pesquisadora do Grupo de Estudos Migratórios da Amazônia (UFAM); Pesquisadora do Grupo de Estudo Interdisciplinar sobre Fronteiras: Processos Sociais e Simbólicos (UFRR); Professora da Universidade Federal de Roraima (UFRR); pesquisadora do Observatório das Migrações em Rondônia (OBMIRO/UNIR). Assessora da Rede Eclesial Pan-Amazônica - REPAM/CNBB e da Cáritas Brasileira.


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